Daniel Nepomuceno, ex-presidente do Atlético fala sobre Eduardo Maluf, Arena MRV, dívidas e clubes credores

Foto: Bruno Cantini

 

Bruna Vargas e Betinho Marques
01/05/2020 – 15h31
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“Naquele momento, eu não queria fazer com o Maluf, de distanciá-lo e colocar alguém no lugar dele. Até pela paixão que ele tinha pela profissão e dedicação pelo Atlético, seria fatal. E a gente foi trabalhando, mesmo quando ele não estava presente. Eu acredito muito que coisas assim tem uma carga de energia, de presença, mantive o respeito. ”

Na noite da última quinta-feira (23), Silas Gouveia e Betinho Marques receberam, no Programa Fala Galo da Rádio da Massa 90.3, o ex-presidente do Atlético, Daniel Nepomuceno, que falou sobre as obras da Arena MRV e da sua gestão à frente do alvinegro. Confira abaixo a entrevista completa!

Foto: André Cantini

DANIEL, O CT E A ARENA MRV

FG – Daniel, em 1929, diante da “grande depressão” que ocorreu nos Estados Unidos, o Atlético inaugurava em 30 de maio, o Estádio Antônio Carlos, estádio que de alguma forma, hoje, propicia o grande sonho da Arena MRV. O Atlético, de novo num momento de crise mundial, “escolhe” querer ser grande e perene para continuar existente e glorioso. Como você se vê dentro desse contexto? Como você entende este momento que o clube vive, novamente num contexto tão difícil para o mundo com o coronavírus?

Os melhores momentos da minha vida foram ir ver o Galo jogar no estádio. A gente sabe que o nosso maior patrimônio é a torcida, é como cada um ali se reconhece. A massa é única. Nessa crise, quem vai sair na frente é quem tem patrimônio, é quem tem equilibro. E o Atlético mostra isso. Um trabalho que tem 5 anos, quem fez essa aposta gastou muita energia, mas vai colher os frutos até o Atlético se tornar um clube cada vez mais sustentável. ”

FG: Como o projeto vem de 5 anos, você estende essa avaliação ao seu mandato, passando agora pelo mandato de Sette Câmara. A gente lembra muito bem que, além de estimular e incentivar a construção do estádio, você sempre fez questão de ampliar o CT do Galo, tornando-o um dos melhores da América Latina. Isso tudo foi fruto de um planejamento bem pensado para tornar o Atlético como um dos principais clubes de futebol do Brasil?

“Sem dúvidas! Eu me recordo da primeira vez, que eu nem era presidente, ainda era o Kalil. A primeira vez que o Rubens e o Rafael colocaram esse sonho na mesa. Vimos que era o momento de tentarmos realizá-lo. E só vamos conseguir porque temos um grupo de pessoas sérias e corajosas e bastante loucas para alcançar isso. Tudo para o patrimônio do Atlético ficar cada vez maior e melhorar as receitas em todas as áreas, seja o ticket médio da torcida, seja em patrocínio, elenco…”

FG: Daniel, qual sua relação agora com a Arena? Pelo trabalho, mais distante ou você se mantém próximo do projeto, de alguma forma trabalha nele?

Eu acompanho. Deixei vários amigos. Até pela minha profissão e função. Tenho muita identificação com a obra. Estou lá, toda vez que sou chamado, a gente tenta comparecer da melhor maneira possível. ”

 

DÍVIDAS E CLUBES DEVEDORES

“A gente precisava de uma arena que não fosse só por 40 jogos, mas que fosse multiuso, para trabalhar com opção de eventos. ”

FG: Os clubes são deficitários em sua maioria, no Brasil. A cada ano o Atlético, ao longo de suas gestões, até por juros e outros motivos, aumentou os valores de suas dívidas. Qual a solução para o futebol brasileiro, visto que a CBF ganha tanto dinheiro, distribui tão pouco, e os clubes que fazem os espetáculos sucessivamente vão acumulando cada vez mais dívidas?

Temos vistos vários avanços. O ‘Profut’ foi o momento de você poder ter essa organização dos dirigentes. Desde que acompanho o Atlético, sei o que todos os ex-presidentes herdaram, sei de cada dificuldade que deixa. Mas futebol é lucro. E acho que a tentativa de jogar a Primeira Liga é uma tentativa de independência feita para ter maiores receitas, para ter um controle maior das cotas de televisão, porque o que sustenta a grande maioria dos clubes do Brasil hoje é a cota. E essa divisão maior vai chegar no momento que o clube deixar de depender de televisão ou qualquer outro. Ticket também gera, estádio sempre pagou muito.

Mas eu acho que futebol gera muito dinheiro. Eu fico preocupado com o esporte ficar sem repercussão, porque quem paga a conta é o torcedor. Ele que gasta parte do salário comprando camisa, ele que dá o dinheiro para você, ele que carrega o ticket. Uma das análises que a gente sempre fez para a Arena era: quanto que o torcedor gastaria no dia do espetáculo e quanto que sobrava para os cofres. A gente precisava melhorar essa conta, dar maior conforto e segurança ao torcedor para ele investir mais. “

 

DECISÕES DIFÍCEIS E A PERDA DO MALUF

“É uma cadeira muito difícil, só quem sentou lá sabe das dificuldades. O balanço que eu faço é de saudades, de momentos muito mais felizes que tensos. ”

FG: Qual foi a decisão, nesse período de presidente do Atlético, que você acha que poderia ter tomado outra decisão?

Fazer uma análise do que deu certo e do que deu errado é muito mais simples depois que você faz a coisa que qualquer presidente faria. O arrependimento vem quando você erra na próxima contratação ou na decisão de quando você vê todos os clubes passando por resultados e você tem que trocar de treinador. Enfim, fazer mudanças mais drásticas. Mas acho difícil citar o maior acerto e o maior erro. Como na final da Copa do Brasil, de ter dedicado um ambiente que talvez precisasse de um ambiente mais inteiro. A gente fica na dúvida: “Pô, levamos o jogo para o Mineirão, será que poderia ser no Independência?”. Mas são várias questões, acho difícil pontuar uma. Futebol são decisões diárias que você tem que tomar nessa hora, sua obrigação de entregar o máximo possível para a torcida, pro elenco, para os 500 funcionários que tem ali dentro.
Mudaria algumas questões, mas não me arrependo de nada. Tinha um grupo de pessoas ao meu lado que fazia tudo comigo e me ajudou bastante. Peguei um time campeão, que dava alegria, e durante esse tempo a grande maioria, a minha satisfação era de ver o torcedor feliz, de estar competindo. Isso que a gente guarda.

FG: O projeto inicial da Arena era levar a parte administrativa, que hoje está no Lourdes, para a Arena?

O primeiro projeto tinha em tese uma área maior de lojas, tinha a possibilidade de ter hotel, só que tivemos que adequar o projeto a realidade financeira, e para preservar metade do Diamond Mall, a gente tinha que tirar equipamentos para conseguir fechar essa conta. Então, naquele momento a gente foi até esvaziando, ficamos mais focados para ter uma arena multiuso. O projeto era bem mais amplo, depois ele foi sendo estudado de acordo com o valor”.

FG: Na sua gestão, foram 7 técnicos, (Levir, Giacomini, Aguirre, Marcelo Oliveira, Roger Machado, Micale e Oswaldo). Qual foi a sua grande decepção técnica? E qual foi seu erro na escolha, seja de contratar ou demitir.

“O time como um conjunto todo, do Aguirre e do Roger eram times que poderiam ter rendido mais, mas não vou citar ninguém em específico que me decepcionei, não o fiz à época, não farei agora. ”

FG: Não teria sido um “erro” não ter alguém para acompanhar ou ajudar o Maluf naquele momento (saúde debilitada) e você ainda dividia sua gestão com os trabalhos na prefeitura de Belo Horizonte? O time não tinha um diretor de futebol e caiu tudo na sua mão. Como você entende esse momento da sua gestão?

” Naquele momento, eu não queria fazer com o Maluf, de distanciá-lo e colocar alguém no lugar dele. Até pela paixão que ele tinha pela profissão e dedicação pelo Atlético, seria fatal. E a gente foi trabalhando, mesmo quando ele não estava presente. Eu acredito muito que coisas assim tem uma carga de energia, de presença, mantive o respeito. Tenho certeza que ficou aí o legado de tudo que ele contribuiu e deixou. Um homem que realmente vai ser difícil ser substituído … Quem já viveu uma situação parecida de perda com a doença entende bem o sofrimento, vivi isto com meu pai”

 

TÍTULOS QUE FALTARAM E FICHA TÉCNICA

FG: A sua gestão frente ao Galo foi muito parecida com o estilo do Kalil (de fazer time), times bem estruturados e com relação ao número de mudança de técnicos. Para você, faltou um título mais expressivo para coroar a sua gestão de grandes investimentos?

Sem dúvidas! Claro que faltou, batemos na trave duas vezes com dois vice-campeonatos e que realmente isso muda a história. O que vale no final é a caneca. Tenho muita coisa que tenho orgulho: na base ganhamos a Copa do Brasil Sub-20. Temos várias vitórias, mas eu acho que ficou por muito pouco. Minha preocupação era manter o time competitivo, um time que disputava a ponta e buscar receitas. ”

Daniel Diniz Nepomuceno – 05/02/1978 (42 anos) – Filho de José Nepomuceno da Silva e Lúcia Angélica Diniz Nepomuceno – casado – pai de 2 filhos (5 e 7 anos) e casado com Isabela Nepomuceno

Secretário Executivo do Ministério do Turismo do Governo Federal, tem sua história ligada ao clube desde garoto. Formado em Direito – Newton Paiva e em Ciências Políticas pela Universidade de Barcelona.

44º Presidente do Atlético – Eleito em 03/12/2014 por aclamação – Conquistou 2 Campeonatos Mineiros (2015 e 2017) e 1 Flórida Cup (2016). Foi vice-campeão brasileiro (2015) e vice-campeão da Copa do Brasil (2016). Disputou a Taça Libertadores em todos os anos da sua gestão. Ainda no seu mandato conseguiu o primeiro superávit da década em 2016 (cerca de R$ 2,1 milhões), elevou substancialmente o programa de sócios. Foi criticado pelas trocas de treinadores (7 técnicos) em momentos questionáveis (final de CB e eliminatória de Libertadores) e foi um dos idealizadores da Arena MRV como necessidade vital do clube.