Coluna do Betinho: A cerca de pregos
Foto: Gustavo Aleixo
Por: Betinho Marques
O dia 09 de novembro de 2015 marcou o título de cidadania honorária para Victor Leandro Bagy, o Libertador. Naquele dia, o narrador que vos escreve relatou em tom subjetivo a história da fábula atleticana e sua famosa Cerca de Pregos. Ainda no canal Camisa Doze, reeditamos esta leitura com imagens e lembranças duras. Para o dia 21 de janeiro, aniversário de um dos maiores ídolos do Atlético, ficam os parabéns e o link do vídeo do texto que foi narrado na Câmara Municipal de Belo Horizonte;
Ontem tive que chorar, mais uma vez tive que arrepiar de tristeza. Tive que assistir e ver a decisão de 1977 na qual nem era nascido, um aprisionamento que marcou como uma cicatriz uma geração de torcedores.
Não me preocupo neste momento em escrever em verso ou prosa
Na verdade, isso, pouco importa
Talvez uma coisa eu saiba mais: transcrever sentimentos atleticanos
De 1977 ficou a marca de uma fábula de um menino rebelde que muitos conhecem. O garoto, muitas vezes ficava nervoso e sem controle. Então, foi orientado pelo seu pai que a cada vez que a cólera viesse, que fincasse um prego na cerca. Por várias vezes, ele insatisfeito pregou vários pregos naquela velha cerca afim de descarregar sua raiva. A cura só viria quando não precisasse cravar nenhum prego nos postes de madeira.
Pois é! Voltaremos a seguir a falar sobre o desfecho do menino e da sua cerca cheia de marcas. Porém, cultivamos as reticências … São elas o oxigênio do Galista, o ar atleticano. Durante muitos anos, o Atlético foi um celeiro de craques que não converteu todo o seu potencial em títulos proporcionais à sua grandeza. Porém, o amor imensurável da sua apaixonada torcida só aumentou. Ao passar por três provações com requintes de crueldade na Libertadores, várias reticências começaram a virar pingos de lágrimas.
Com o “showman” R10 em campo, tudo era um roteiro pronto para vários coadjuvantes e um líder. Não deixou de ser, porém, surgia ali outro protagonista para o posto de “Libertador” da alma preta e branca, o Moisés da Massa. Saímos de 30 de maio sem saber onde estávamos. Naquele momento, uma canção pairava na cabeça: “eu não pedi pra nascer, eu não nasci pra perder”. Anestesiados, as reticências seguiram para mais uma fase de esperança. Coerência não é uma virtude atleticana. Cravamos e enchemos a cerca de pregos, quer dizer, o menino rebelde.
Fizemos então, uma viagem louca para o dia 11 de novembro de 2013, de repente, a luz acabou. Das trevas à luz maior. Num chute frio e calculista, avesso às tradições, mais um postulante a protagonista surgiu. Mais uma vez os temíveis pênaltis estavam ali, à nossa frente, e aí… pois é! Até Victor salvar outra vez, a cerca estava novamente entupida de pregos. Ele salvou outra vez. Meu Deus, pra quê isso?!
Quisera Deus reservar um natal em pleno julho, com direito a véspera e ceia posta. Quase todos criam que tudo estaria resolvido no dia 24 de julho… soltei naquele instante uma risada dolorida que era evidenciada por um frio intenso vindo do estômago. Confesso, diante de tantos pregos já depositados, que faltavam poucos espaços na cerca destinados às raivas e frustrações. Tinha então, que administrar tudo isso. Tomei um banho e limpei tudo de ruim que estava no meu peito…. Não me permiti entrar no Mineirão com qualquer sentimento negativo. A atmosfera era de crença total, como poucas vividas, mesmo que tivessem ali vários entrado no cheque especial para comprar o ingresso da final. Um dia memorável, daqueles que se comparam ao casamento ou ao nascimento de um filho.
Então, naquele 24 de julho, Jô abriu os caminhos no início do segundo tempo. O jogo ficava tenso e o tempo ia passando até que: Ferreyra avança em direção ao gol do Olímpia, seria o gol do título dos paraguaios, mas aí, bem de leve, houve uma acomodação tectônica e as placas do Mineirão se levantaram sutilmente e disseram: Hoje? Passar pelo Libertador? Hoje não!
Estava o garoto rebelde a quatro minutos de cravar os últimos pregos na velha cerca, de repente, uma bola despretensiosa, mas muito pretenciosa, lembram da coerência, né?! Então, a bola alta, digna de um “chuá” do basquete encontra a cabeça de Léo Silva … Naquele instante, nas frações mais longas muitas reticências voltaram em cenas antigas, nos sonhos amargurados, tudo seguia a trajetória daquela bola … Meu Deus … Meu Deus!
Ela caiu dentro do gol!!!! Olho para o juiz!!! Gooooooooooooooool! Fruta que partiu! Pra quê isso, sô?! Bora preparar os pregos… Começa ali outro dia, já era natal e após a prorrogação, estávamos ali diante dos temidos penais. Nada de ruim é permitido pensar. Vem então, 1977 na cabeça … aquelas traves, aquele lugar … Olho para meu primo, não dizemos nada, abraço ele e o Mineirão todo se abraça.
Victor pega o primeiro, mas não sei se é permitido comemorar. Victooooooor! Meu Deus, mas em 1977! Faço ali punições a mim mesmo por frações de segundo. Mas foi ali, pegando os dois primeiros, João Leite, no mesmo gol. Será que foi bom Victor pegar?! Não seria melhor …
Terços e terços abençoam o arqueiro atleticano. Uma disputa psicológica faz o terço entrar e sair do gol a cada cobrança. Victor colocava o terço, o goleiro rival tirava, até que … Victor pegou o terço pela última vez e o garoto pegou seu último prego e …
Isso! O garoto rebelde cravou seu último prego naquela cerca. A força descomunal fez o prego atravessar a estaca de madeira, enquanto a bola beijava a trave de Victor. Nesse momento, a terra parou por pelo menos um dia. Dentistas não precisavam de anestesias, açougueiros, padeiros, médicos, advogados, engenheiros, faxineiros pacientes com doença terminal … A terra parou meus amigos, a terra parou. As reticências tão amadas eram chamadas de Esperanças.
Por fim, naquele mesmo gol onde a maior parte dos pregos fora depositada, os pênaltis historicamente traumatizantes, símbolos do fracasso, foi ali que tudo renasceu, ali a Glória maior aconteceu. Um goleiro reserva, concorrente de posição carregava o outro, cenas de um natal em comunhão.
Então, após umas semanas, conforme combinado em acordo prévio, o garoto rebelde, curado, foi convidado pelo seu pai para ir até a cerca retirar os pregos cravados na cerca. Após a retirada do penúltimo prego o pai disse ao garoto:
– Perceba meu filho, que mesmo que sua cólera tenha passado, as marcas na cerca nunca serão apagadas.
O filho de primeira respondeu:
– Pai, é verdade, marcas que ficam. Porém, a marca deste último prego estará sempre cravada em nós e faz parte não da minha raiva, mas sim da maior vitória das nossas vidas…
– Como assim, meu filho?
– Aqui Deus permitiu que Victor libertasse toda a Massa atleticana dos seus fantasmas, no mesmo lugar. Este é o prego da libertação. Nesta cerca a vitória se reaproximou do Clube Atlético Mineiro, nesta cerca o Galo renasceu. Os pontos finais não existem e enquanto houver reticências estará vivo o coração atleticano. Te amo, pai!
Obrigado, Victor! Parabéns para você!
Galo, som, sol e sal é fundamental!
