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Entre tapas e beijos está nascendo um novo Atlético

Foto: Reprodução 

Por Max Pereira / @pretono46871088 @MaxGuaramax2012

No artigo “O PÉRIPLO DE CUCA: NO LUGAR ERRADO E NA HORA ERRADA! ”, publicado em 15 de abril passado aqui nesta coluna, escrevi que, quando voltou ao Atlético, Cuca chegava ao lugar errado e na hora errada, tanto para ele, quanto para o clube. Cheguei a afirmar, e naquele momento não poderia e nem conseguiria pensar diferente, que ele nem deveria ter vindo e que a sua volta ao Atlético naquela ocasião era um dos erros mais crassos de avaliação da história do futebol. Um desastre, para o clube e para ele próprio. Para mim, o clube errara por convidá-lo a voltar e ele, tanto quanto, ao aceitar.

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A verdade é que eu não conseguia acreditar que Cuca jamais pudesse fazer o elenco atleticano produzir e jogar um futebol de excelência vez que a incompatibilidade desse grupo com a sua forma de ver o jogo se mostrava gritante. E ousei afirmar que a sua permanência era prejuízo certo.

Passados alguns dias a mais do que aqueles 10 que ele prometeu um novo time, é com imenso prazer que reconheço que o Atlético hoje, se ainda não é brilhante e regular em todos os seus jogos, já mostra uma evolução absolutamente insuspeita naquelas primeiras semanas de Cuca nesta sua segunda passagem pelo Glorioso. Como é bom ter errado em meu vaticínio.

Naquele início mais que turbulento se via um time que abusava obsessivamente dos chutões e dos lançamentos diretos, o famoso e tão criticado Cucabol. Sem uma efetiva e fluida transição pelo meio, a equipe de Cuca chegou a matar a principal qualidade do craque do time, Nacho Fernandes, ao fazê-lo jogar lá na frente, recebendo bola de costas para o ataque e, consequentemente, o impedindo de ver o jogo e de criar alternativas.

Cuca havia chegado com a delicada missão de conduzir uma transição complexa de modelos táticos, vez que a sua forma de ver o jogo e de seus times tradicionalmente atuarem nada têm a ver com a filosofia de jogo de Jorge Sampaoli. Naquela ocasião, o treinador campeão da Libertadores de 2013 passava um momento extremamente delicado. Ao mesmo tempo em que enfrentava uma pérfida exploração extemporânea de uma acusação antiga e já resolvida no passado, ele via a sua genitora lutar contra a Covid em leito de CTI de um hospital de Curitiba. Ou seja, tudo contraindicava a sua contratação.

A tradicional melancolia do treinador, potencializada com toda a razão pelos problemas que ele enfrentava, se somou às dificuldades naturais que vários jogadores encontraram para absorver as ideias do novo treinador, aos desequilíbrios físicos do elenco, uns voltando de um curto período de férias, outros de uma inatividade forçada por alguma lesão e as atribulações próprias das agruras dos períodos de adaptação.

Ainda contra o Atlético pesava, e de certa forma ainda pesa, a inexistência no elenco de um líder nato, de alguém que, dentro e fora do campo, assumisse o comando da equipe e fosse a âncora para os demais companheiros nos momentos em que tudo parecesse perdido e sem solução.
Embora o elenco atleticano seja muito bom e de potencial e qualidade inegáveis, faltava e ainda falta, alguém que, por características próprias, tivesse capacidade de fazer o time não sucumbir àquela melancolia e não se mostrar impotente diante da menor dificuldade. Alguém que pudesse fazer o time recuperar a alegria de jogar e a confiança em seu futebol. Alguém que conseguisse despertar aquele olhar de águia em cada um de seus companheiros. Oldair Barchi em 71, Jorginho na campanha da conquista da segunda Conmebol, R10, Josué e Gilberto Silva na campanha da Libertadores de 2013, por exemplo, foram esse alguém.

Mas, não há mal que sempre dure. E, sobre isso, no artigo “DEPOIS DA TEMPESTADE SEMPRE VEM A BONANÇA. MAS, E DEPOIS DA BONANÇA? ”, publicado em 7 de maio do corrente ano aqui no “PRETO NO BRANCO”, escrevi que também não há bem que sempre perdure. E lembrei que “essa parece ser uma lei inexorável da vida de qualquer um de nós e que os clubes de futebol também se submetem a ela de forma compulsória e inevitável”. No caso do Atlético, essa gangorra é o retrato escarrado da vida do clube. Por isso, todo cuidado é pouco.

Tudo indicava que Cuca, por tudo o que aconteceu, já foi dito e eu já escrevi, estaria no lugar errado e na hora errada, se obrigando a realizar um périplo que poderia significar para ele e para o clube uma viagem sem volta a um inferno sem fim. Porém, e aqui vale repetir que, o destino quis “que um super-herói improvável se tornasse o santo protetor das causas atleticanas. Um incrível Hulk, vindo da China, nascido Givanildo, como tantos outros nordestinos desse Brasil continental, desceu nessas montanhas, verde de vontade e de profissionalismo, e chamou para si a responsabilidade de estartar e liderar uma reação até então insuspeita”.

E, a partir daí pôde o atleticano observar que Cuca e o elenco começaram a se encontrar e a se harmonizar levando o Atlético a percorrer um caminho interessante e promissor que poderia levar o clube bem mais longe do que a sua vã filosofia naqueles dias de turbulência poderia imaginar.

O Atlético jogou ontem em Porto alegre contra o Internacional pelo campeonato brasileiro e este artigo foi escrito antes do confronto. Independentemente do resultado e do que tiver acontecido neste jogo nada muda em relação ao que está dito neste ensaio. É que o caminho que o Atlético está percorrendo é, obrigatória e necessariamente, de idas e vindas, de ajustes, de amadurecimento e de construção e evolução contínuas. Ou seja, nesse caminho, entre vitórias retumbantes e autoritárias e atuações sublimes, ainda vão acontecer tropeços, jogos irregulares e ruins.

Particularmente o que me vem deixando muito satisfeito e fazendo com que eu tenha que dosar sempre aquele otimismo exacerbado, próprio de qualquer atleticano apaixonado, é que o bom ambiente e a bem querência que sempre se percebeu entre os jogadores, conforme os vídeos e as fotos que pululam nas redes sociais atestam, e a vontade de acertar e o comprometimento inescondíveis do grupo, não só favoreceram a missão do super-herói alvinegro, mas, também, já começam a transparecer com efetividade dentro de campo e a consequência disso tudo é um time cada vez mais, leve, fluido, senhor de si e muito gostoso de ver jogar.

Falei em amadurecimento e é exatamente isso que o time vem mostrando como lastro de uma inescondível evolução. Nas redes sociais, alguns atleticanos estão comemorando o que chamam de time cascudo que hoje não só busca ditar o ritmo dos seus jogos, como já consegue se impor efetivamente diante de qualquer adversário, mesmo que por vezes ainda oscile e cause preocupações à sua massa torcedora.

A consistência defensiva também chama a atenção, assim como a utilização cada vez mais frequente dos jogadores dentro de suas características, tem permitido ao time explorar caminhos táticos variados, fazer uma transição cada vez mais vertical, rápida e eficiente. Savarino vinha em um crescente importante. Convocado, foi servir à seleção venezuelana e Hyoran entrou em seu lugar, e à sua maneira e modo, não está nos deixando sentir saudades do titular. Se Guga evoluiu extraordinariamente com Sampaoli, Rabello, Rever, Mariano e Allan estão chegando a um nível de excelência com Cuca que não pode ser desconsiderado.

No tempo em que Don Don jogava no Andarahy, não tinha tanto miserê, nem tinha tanto ti ti ti, compôs Nei Lopes e cantou Dudu Nobre. Nestes tempos de Dodô, o Galo é eficiência, sem muito mi mi mi.

Enquanto Tchê Tchê e Everson vêm calando a boca de muitos com um futebol bastante eficiente, Nacho e Hulk, por outro lado, se transformaram, cada qual à sua maneira, na força motriz que conduz a engrenagem alvinegra com talento, força, volúpia e energia.

Jogando por terra todos os argumentos de seus mais ferrenhos críticos, Cuca vem conseguindo driblar até os recorrentes desfalques, agora agudizados pelas seguidas convocações de vários de seus principais jogadores. E o seu desafio pode ficar cada vez pior. O fantasma de um novo surto de Covid ronda o clube. Zaracho, Rabello e Savarino são, até agora, a bola da vez. E, ainda que os dois primeiros, segundo o clube, estejam assintomáticos (de Savarino nada se pode falar, dada a exiguidade de informações até este momento), nada garante que não terão sequelas e que o seu rendimento físico-atlético não ficará comprometido por um bom tempo.

No artigo “NO CAMINHO DO ATLÉTICO E DO FUTEBOL BRASILEIRO AINDA TEM UMA PEDRA. TEM UMA PEDRA NO CAMINHO! ” , publicado neste espaço em 30.9.2019, escrevi que “Uma questão tormentosa vem desafiando a argúcia de comentaristas e pensadores quando o assunto é o futebol brasileiro”. É que, aqui nessas terras tupiniquins, o futebol vem há anos sofrendo, dos pontos de vista tático e técnico, uma revolução clara, gradativa e bastante ruim a meu ver e o que antes era lúdico e técnico por excelência é hoje basicamente físico, tático e mental.

Não bastasse tudo isso, a ainda delicada situação financeira do clube refletida na gigantesca dívida confessada no último balanço e a consequente necessidade de se equalizar o passivo, eliminar os gastos supérfluos e viabilizar o clube de vez, pressionam os próceres do clube a buscar soluções para fazer receita.

Historicamente, no Atlético sempre se falou, defendeu e incentivou buscar receitas por meio das vendas dos direitos econômicos dos jogadores. Sempre foi assim, desde a era dos passes. Diversificar e maximizar a receita por meio de outras fontes e estratégias era algo quase nunca presente na vida do clube. As poucas iniciativas quase sempre eram frustradas seja pela péssima formatação ou pela má condução do projeto, seja pela falta de credibilidade que sempre levava a torcida a não acreditar e a não apoiar.

Se as coisas de fato mudaram e novas estratégias de maximização e diversificação da receita estão sendo gestadas e algumas já foram até implementadas, a saída de jogadores ainda é vista como essencial e fundamental à sobrevivência do clube. E isso tem tirado o sono e a tranquilidade de muitos atleticanos que temem que, a exemplo de um passado não tão distante, novo desmanche aconteça. Dia sim, o outro também, o Atlético vem dando recados para quem possa interessar de que as saídas de alguns jogadores deverão acontecer, dada a necessidade de fazer caixa. Uma política perigosa porque pode desvalorizar os seus ativos e, ao mesmo tempo, desfocar e desmotivar os atletas cujos nomes são continuamente especulados em razão desses recados.

Nesse contexto, as dificuldades de Cuca, de todo o grupo e de todos aqueles que têm a responsabilidade de conduzir os destinos do Glorioso aumentam em progressão exponencial. Como dar uma resposta de excelência em meio a tantas adversidades?

Para um clube que, a olhos vistos, vem passando por uma revolução de métodos e conceitos de gestão e de modernização e profissionalização de sua governança, parece não ser um bicho de 7 cabeças. Ledo engano. O futebol é naturalmente um universo prenhe de armadilhas.

Mais do que nunca o momento desafia a habilidade, o tirocínio, a capacidade de comandar e polir arestas e de planejar de Cuca e dos dirigentes. Um dos maiores desafios será manter o time nesta crescente, administrando as saídas e provendo as chegadas com peças de reposição adequadas.

E mais: não dá para esquecer que a presença na vida do Atlético dos tão falados e invejados mecenas, amados por muitos, odiados por outros tantos, vem tornando muito caros e até inviáveis vários alvos do clube. Que a reciproca seja verdadeira e que os nosso não saiam a preço de banana, como a tradição do clube nos mostra.

Entre tantos tapas e muitos beijos apaixonados, é preciso garantir que esse novo Atlético que está nascendo seja cada vez mais forte e pujante.