Foto: Flickr Atlético / Pedro Souza
Por Max Pereira @pretono46871088 @MaxGuaramax2012
Este com certeza foi o artigo mais doloroso de se escrever nos últimos tempos. Embebido por uma ressaca moral e por um sentimento imenso de decepção e frustração não foi fácil, inclusive, escolher o titulo para este ensaio.
A eliminação do Atlético acontecida da forma que foi deixou em mim, mais que a natural tristeza de um torcedor que não vê o seu time do coração chegar à final da maior competição do continente depois de uma campanha quase irretocável, uma sensação doída de ter sido profundamente desrespeitado pelo Atlético. E Atlético aqui é o todo, ou seja, diretoria, gestores, comissão técnica, treinador e, claro, o time pelo que não fez em campo para se classificar.
Tenho ao longo dos tempos, seja aqui no PRETO NO BRANCO, seja em outros espaços, defendido, quase que solitariamente, alguns conceitos que, a meu ver, estão na raiz deste histórico de eliminações e de frustrações que o Atlético impõe ao seu torcedor. Uma das frases mais repetidas por mim e que até já foi título de artigo é “tudo o que acontece dentro de campo é consequência direta, é reflexo do que acontece fora das quatro linhas”.
Não, não quero dar a este ensaio aquele colorido antipático dos escritos pautados por aquela observação carregada de um ranço pretencioso indisfarçável; “eu avisei”. Mas, é inevitável não me lembrar de tantos quantos textos onde alertei que “a bola pune”, “a bola não perdoa”, “a partir de agora é foco total e erro zero”. Alertas que foram títulos e títulos que foram alertas.
No artigo “É TEMPO DE TEMPERAR CARÁTER DE CAMPEÃO”, publicado em 11 de agosto deste ano aqui nesta coluna, eu já havia escrito, antes mesmo do primeiro jogo contra o emblemático River Plate pelas quartas de final da libertadores, que, embora muitos ainda não soubessem ou tivessem atinado, que o mais temível adversário do Galo em qualquer competição não é outro senão o próprio Atlético.
Naquela ocasião lembrei uma fala do Professor Celso Unzelte, comentarista dos canais Disney e um dos maiores conhecedores do esporte bretão neste país. Unzelte, ao enaltecer a suada vitória do Atlético sobre o Juventude em Caxias, disse que foi um jogo para temperar caráter de campeão. Para o nobre analista o Galo teve mérito porque se modificou durante o jogo e, até o final da partida, buscou o resultado que lhe interessava. Para mim, naquele momento, o Atlético indicava viver um momento de transformação e, como não poderia ser diferente, sofrido e de superação.
Vejo hoje que, infelizmente, esse caráter de campeão ainda não foi cozido o suficiente. Nos últimos três jogos, em particular nos dois duelos com o Verdão paulista, o Atlético, não só não conseguiu se modificar durante os jogos para buscar o resultado que lhe atendia como ainda mostrou que não conseguiu superar, como clube, as suas idiossincrasias históricas.
As 48 ou 72 horas que antecederam o jogo de volta contra o Porco foram, do ponto de vista atleticano, patéticas e só serviram para criar um clima extremamente favorável ao Palmeiras. De um lado canais e perfis atleticanos divulgaram e exploraram uma notícia absolutamente imprópria e extemporânea sobre uma possível saída de Matias Zaracho. Aqui se falava de uma proposta, ali se garantia que eram duas propostas. Aqui e ali se vaticinava que o jovem argentino deveria mesmo mudar de ares porque o clube tinha porque tinha que atingir a sua meta orçamentária.
De outro, um perfil atleticano colocou nas redes sociais uma pesquisa onde quem participasse deveria indicar quem, em sua opinião, se classificaria para a final da Libertadores, o Atlético que tinha mais time ou o Palmeiras que tinha um time mais cascudo? E, pasmem, no momento em que acessei tal pesquisa o antigo Palestra ganhava de lavada. Nem votei e não mais retornei. Mas, quem mesmo que se mostrou mais cascudo nessa disputa por uma vaga na final da Libertadores?
A eliminação, ainda que fruto de um conjunto de erros cometidos à larga dentro e fora de campo que resultaram em atuações muito ruins, não escondem que o Atlético vinha, de fato, fazendo uma temporada meritória que enchia o coração atleticano de esperanças mil. Mas, o que então gerava toda a insegurança e descrença na classificação e no titulo que, no fundo, no fundo, muitos e muitos atleticanos indicavam experimentar no mais intimo de seu ser?
É inegável que, nos últimos dois anos, o Atlético vem passando por uma transformação radical e ímpar na historia e, claro, para melhor. Também é inconteste que o clube, com o inestimável apoio dos Mecenas, montou um elenco de peso e, em consequência, senão o melhor time do pais, um dos três mais fortes da atualidade. O que falta, então, para que o time alvinegro tenha moldado em seu DNA o caráter de campeão que Unzelte acreditava que estava sendo cozido e que é vital para que o clube, de uma vez por todas, mude vez essa sua história de resultados indesejáveis e de eliminações doídas?
No artigo “MATA-MATA, UM JOGO DE ARMADILHAS”, publicado na ultima sexta-feira, dia 24.9, no Blog Canto do Galo, escrevi que o Atlético havia entrado na fase mais aguda e decisiva da atual temporada que o desafio era gigantesco e que era preciso considerar que o fato de liderar com autoridade o Campeonato Brasileiro, qualificando-se ate então, como um dos mais fortes candidatos ao título, senão o mais forte se considerarmos as possibilidades estatísticas que os números do momento permitem calcular, somado ao fato de que estava a apenas 90 minutos da tão sonhada final da Libertadores e já classificado para disputar a semifinal da Copa do Brasil, se de um lado é prova inquestionável de uma campanha de muitos méritos e merecedora de muito aplausos, de outro estava a exigir do clube foco total, erro zero e percepção de que estava, como ainda está, percorrendo um terreno minado, onde todo o cuidado é pouco.
Lembrei, ainda, que as competições de mata-mata são de vida e de morte. E que quem perde está fora da disputa sem qualquer chance de recuperação. E imaginava que, aprendida a lição do jogo de ida contra o Verdão paulista, o Atlético teria todas as chances de, dentro de casa, cravar com autoridade a sua classificação para a grande final. Ledo engano.
Mas, não pensem que somente as armadilhas criadas pelo Porco respondem exclusivamente pela derrocada alvinegra na Libertadores. Fiel ao seu carma histórico de que se pode complicar para que facilitar as coisas, o Glorioso continua na sua sina macabra de criar dificuldades para si próprio e potencializar aquelas outras impostas pelos seus adversários. Nessa disputa em particular, tanto no jogo de ida em São Paulo quanto no jogo de volta no Mineirão, o Atlético caiu reiteradamente nas arapucas armadas pelo time paulista, evidenciando total despreparo para a decisão.
Aqui, um recado para o comando alvinegro em todos os seu níveis, diretoria executiva, gestores/mecenas, diretoria de futebol, comissão técnica e treinador e também para os jogadores.
Todos tem a sua parcela de responsabilidade neste empate com sabor amargo de derrota. Se é verdade que Hulk estupidamente perdeu um pênalti no jogo de ida, que Vargas, atarantado e sem confiança, desperdiçou chances preciosas na cara do gol adversário e que Nathan Silva sentiu o peso da decisão e falhou bisonhamente no gol de empate do Palmeiras, não é menos verdadeiro que o clube, em todas as suas esferas e níveis de poder e decisão, também deixou a desejar.
Assim, como o time dentro de campo tem que jogar coletiva e afinadamente, cada um cumprindo a sua função, a equipe fora das quatro linhas tem que também trabalhar harmonicamente, cuidando para que nada de ruim possa interferir na atuação e no desempenho do time. E, como tudo o que acontece dentro de campo é consequência direta, é reflexo do que acontece fora dele, parece claro que o clube, na gestão do futebol, também ficou devendo.
Em uma de suas ultimas entrevistas coletivas Cuca admitiu e reconheceu que o grupo atleticano de modo geral, e alguns jogadores em particular, estavam muito desgastados física, emocional e mentalmente. E o que foi feito em relação ao cuidado da saúde física, emocional e mental dos jogadores? A previsível lesão muscular de Diego Costa, sem ritmo, lento e pesado, e a até agora não explicada virose de Keno poderiam ter sido evitadas? O clube permitiu algum vazamento de propostas para Matías Zaracho que, por ventura, tenha recebido, ou quem divulgou e explorou isso tirou do nada, apenas ter audiência e jogar conversa fora?
Não é hora de contemporizar e nem de continuar apoiando acriticamente. Também não é hora de simplesmente esperar que apenas os bons ventos soprem daqui em diante, ignorando ou desprezando a possibilidade de que novas tempestades ocorram. É preciso, e eu não canso de repetir, aprender a ESPERANÇAR, i.e., a construir e a fazer por onde o sonho se realize.
É hora de aprender com os erros. É hora de entender que, nesse momento, a virada de chave para o Brasileirão e para a Copa do Brasil, se mal conduzida, pode levar ao fracasso nessas duas competições também. A temporada ainda não está perdida e é hora do Atlético entender e fazer o que tiver que fazer a partir de agora para que 2021 não vá definitivamente para o lixo.
